Entrevista Rica Amaral e Feio
Eles são os fundadores da mais tradicional festa open air de música eletrônica do Brasil. Hoje, mais que um núcleo de festas, a palavra XXXPERIENCE significa um estilo de vida.
A festa que começou com uma semente plantada em uma festa para poucos amigos em 1996 acabou conquistando o coração de milhares de pessoas de norte a sul do país, além de marcos inéditos na cena nacional como uma 100ª edição (2007), 12 anos de história, CDs e DVDs compilados e a já tradicional comemoração especial de aniversário da XXXPERIENCE, que acontece anualmente em novembro reunindo cerca de 30 mil de pessoas vindas de todo o Brasil.
Não à toa, a dupla tem muito o que falar… Acompanhe a entrevista exclusiva de Rica & Feio, às vésperas da edição especial XXXPERIENCE 12 ANOS (15/11, Itu – SP). Como eles mesmos dizem: “mais que tudo, o começo de um novo ciclo”.
01. Para vocês, o que significa de fato a comemoração no dia 15 de novembro?
Rica: Mais um ano de realização, mais um aniversário, mais uma tour completa, mais história, mais um ano levantando a bandeira da cena de música eletrônica brasileira, mais um ano de luta, respeito e dedicação a mais de um milhão de pessoas que hoje em dia se abastecem de informação através desta cultura, 12 anos, mais de 110 edições de eventos open air de altíssimo nível. Mas, mais do que tudo, o começo de um novo ciclo…
Feio: Creio que é um marco histórico para a cena nacional e mundial, pois desconheço uma festa de psytrance com 12 anos de existência e que possua muito mais de 100 edições nesses anos todos. Nessa comemoração mostraremos também, num conceito atual, tudo o que criamos e apresentamos ao público durante esse tempo todo, em várias capitais brasileiras, além da nova decoração para 2009.
02. Dia 15 é a comemoração da Proclamação da República que derrubou a monarquia que regia o país até então, a cena eletrônica também trouxe um movimento inovador para o Brasil, como um dos responsáveis por trazer esta cultura para cá, vocês consideram que já derrubaram os preconceitos e obstáculos oriundos desta vertente musical?
Feio: Eu acredito que derrubamos vários preconceitos sim, mas as barreiras ainda estão de pé. Creio que principalmente as autoridades e pessoas de uma geração mais antiga, que apesar de terem passado pelo movimento tropicalista, que para muitos foi um marco de renovação da cultura jovem ou da contracultura jovem. Mais ou menos comparado ao que havia acontecido pós Woodstock nos EUA, a nossa música é vista e interpretada como foram crucificados anos atrás, Os Mutantes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, enfim artistas que hoje são as grandes cabeças do Brasil, mas que antes eram o que de pior o Brasil possuía, isso logicamente na cabeça de autoridades, etc e tal, para mim voltamos a uma ditadura camuflada, um autoritarismo sem consulta à população, pois governo e políticos estão simplesmente nos proibindo de tudo, não só ao que se refere à diversão, mas à bebida, fumo e por aí vai. Portanto acho que nossa vertente musical ainda está engatinhando nesse mundo, e que temos muito a fazer e provar que essa cultura é benéfica e não maléfica como tentam provar por aí.
Rica: Já derrubamos vários preconceitos com certeza, mas eles existem até hoje, só o que muda é o foco. Nós estamos focados na música, na união das pessoas, na desconexão com o sistema que tão facilmente escraviza a todos nós, por isso que estamos de pé e cada ano mais fortes.
03. Como é ter um reconhecimento internacional tanto pelo trabalho como DJ como organizadores de um dos maiores eventos da cena brasileira? Há previsões de levar a XXXPERIENCE para fora? Aliás, como é a imagem da XXXPERIENCE fora do Brasil?
Feio: Bom, como artista realmente a XXXPERIENCE no meu caso me impulsionou muito no mercado externo, por simplesmente sermos um dos maiores empregadores de artistas de música eletrônica psy no mundo, e muita gente acaba nos conhecendo por intermédio de outros artistas que se apresentam nas nossas festas. Lógico que rola muito convite, com a famosa idéia do, “eu te convido para você tocar aqui e você me convida para eu tocar aí”, mas comigo isso não me influencia em nada, pelo contrário, me deixa louco da vida! Graças a Deus sou convidado a tocar no exterior pelo meu trabalho e pelos 10 CDs que já lancei, as 5 músicas já lançadas e remasterizadas por outros artistas por várias vezes, e lógico com um nome forte pelas costas denominado “XXXPERIENCE”, isso só me fortalece ainda mais. Quanto a XXXPERIENCE no exterior, uma coisa é unânime, todo mundo conhece, organizadores, artistas e o mais importante, o público estrangeiro. Levar a XXXPERIENCE para fora é um sonho bem palpável e real, só dependerá do futuro, pois propostas nós temos, e não são poucas… Como eu digo sempre “o negócio é acreditar”.
Rica: O reconhecimento por um feito, um trabalho, é sempre ótimo, principalmente quando vem por algo que te dá tanto prazer e experiências positivas, aí quando passa as barreiras físicas e chega em outros países, se torna algo até perigoso de lidar, mas como somos pessoas humildes e de boa educação, eu e o Feio temos nosso pé muito no chão e não perdemos nunca a cabeça ou ficamos deslumbrados. Somos quem somos e estamos muito felizes e orgulhosos disso. Já tivemos algumas propostas de levar a XXXPERIENCE para fora, mas creio que ainda não é a hora, ainda temos muitos cantos do Brasil para chegar. Hoje em dia, entre as pessoas que se envolvem com a cena através do mundo, acho difícil alguém ainda não ter ouvido pelo menos falar da XXXPERIENCE ou da cena brasileira, das festas na praia…
04. Da primeira XXXPERIENCE para os dias de hoje, quais as maiores diferenças no comportamento do público como ideais, estilo, manifestações culturais, etc?
Rica: As diferenças são todas, em 12 anos já passamos por algumas gerações de festeiros, hoje eu tenho 38 anos e toco para pessoas de 18, às vezes menos, quando eu tinha 18 existia Atari, não existia internet, telefone celular, esses games em rede… Creio que hoje o nosso trabalho é muito mais importante do que há alguns anos atrás, porque a cada ano as pessoas vivem com mais medo, as crianças mais dentro da TV e do game, então as festas vêm para tirar as pessoas de casa e muitos também com suas habilidades tecnológicas, tão normais hoje em dia, acabam virando grandes produtores de música eletrônica ou imagem digital.
Feio: Eu observo muito o modo de se vestirem hoje em dia, pois já fui estilista por 18 anos na Hang Loose, uma famosa marca de surfwear no Brasil, então possuo isso dentro de mim instintivamente. Antigamente nas nossas festas as pessoas eram bem mais hippies, e não estavam nem aí para moda, coisa que hoje em dia eu vejo, por exemplo, grupos de amigos desfilando ou pode se dizer dançando, com guarda chuvas iguais e da mesma marca, no caso a Oakley, ou meninas com aquelas botas “rave’’, enfim a moçada se produz para as festas, ou pelo menos tenta. Agora o que se manteve nesses anos todos, foi a “fidelidade” das pessoas a nossa festa, pois nesse ano de 2008 tivemos vários imprevistos relacionados às péssimas condições meteorológicas, como nas festas do Rio de Janeiro e Belo Horizonte, mas o incrível é que as pessoas estavam lá nos apoiando, e é como sempre eu digo “A XXXPERIENCE é uma família, a família XXXPERIENCE”.
05. O que vocês consideram de mais diferente na linha de som de vocês? O que mudou, o que continua?
Feio: Nossa, eu sou um camaleão quando eu toco, quase nunca repito o mesmo set, sempre me informo do horário que eu toco, quem toca antes e depois de mim, se é club ou festa open air, comercial ou underground, para quantas pessoas, e a partir de tudo isso é que crio o meu set imaginário na minha cabeça e começo a tocá-lo dias antes do evento, ehehehehe, fico sempre muito ligado a esses detalhes. Hoje a minha música é muito mais progressiva e com um bpm bem mais baixo do que antigamente… Só para se ter uma idéia, antigamente começava um set tocando uma música de 140/142 bpms, e hoje eu termino o meu set com esses bpms… Mas é isso mesmo, o negócio é se reciclar, aí está o segredo das coisas.
Rica: Na minha linha de som, de 12 anos pra cá mudou só a qualidade de produção, porque a música é a mesma, o que para mim é difícil de explicar, por se tratar de sentimento, a música é melhor ouvida quando você também ouve com o corpo, então essa se tornou minha especialidade, tocar música que instiga, provoca, chacoalha, enlouquece…
06. Nestes 12 anos de história, quais os momentos mais emocionantes no que se refere à XXXPERIENCE? É possível destacar algum (s)?
Rica:
· Primeira edição 1996, aquele meu estado de choque com a própria festa que eu estava fazendo, foi chocante mudou minha vida.
· 1998 primeira Earth Dance/XXXPERIENCE no Brasil, 3.000 pessoas lotando todos os cantos do Bar do Meio na frente da praia em Maresias
· Fazenda Arujabel, batemos o recorde de público com 5.000 pessoas, com 2 pistas, chill out, vôo de balão, foi a festa mais linda até então, super produção e fazenda maravilhosa.
· 1999 primeira XXXPERIENCE fora de São Paulo, Psychedelic Invaders em Brasília, 3000 pessoas quebrando na beira do lago sul
· 2006 edição especial de10 anos 30.000 pessoas, completamente insano
· 2007 100ª edição no Rio de Janeiro, não passou nem de longe nos sonhos mais ousados que já tive, vamo que vamo…
Feio: Acho que sem dúvida houve dois grandes momentos, o primeiro quando eu e o Rica fizemos a primeira XXXPERIENCE na praia de Maresias no litoral norte de São Paulo, no falecido “Bar do Meio”, onde conseguimos reunir 1500 pessoas e que foi sucesso total em termos de diversão e com um grande encontro de amigos numa festa na praia, e o outro momento foi a edição de 10 anos para mais de 30.000 pessoas.
07. Esta Ed. Especial parece ser a maior de todas. Serão 4 pistas, mais de 30 atrações, vários artistas inéditos e muitas sonoridades diferentes vão acontecer ao mesmo tempo no festival. Do ponto de vista de público, quais são os artistas que vocês gostariam de conferir lá no dia? Qual a boa?
Rica: Esse é aquele tipo de festa que você fica completamente sem saber pra que lado ir, e é exatamente isso que queremos ter, vários nomes e números incríveis ao mesmo tempo, confusão total, no ótimo sentido da palavra. E aí de quebra para acabar com a confusão um rolê na roda gigante turbo, ou quando bater o desespero um pulo de cabeça do bungee jump.
Feio: Nossa aí você me pegou… Creio que realmente todos são excelentes, mas sem tirar o mérito de ninguém, pelo que andam dizendo por aí a sensação será o “DeadMau5’’ finalizando a festa, mas acho que a festa em si está completa e com atrações para todos os gostos.
08. Em 1999 houve uma edição em Curitiba que contou com um parque de diversões, e em novembro teremos o Adrenalin Park, o resgate das raízes é um dos principais objetivos na turnê de 2009?
Feio: Sem dúvida nenhuma, pois muita gente esquece ou de repente nem imagina, por serem novos na cena, do que já fizemos, e o tanto que influenciamos essas festas de hoje em dia, inclusive essa suposta novidade de misturar estilos de música eletrônica no mesmo evento que virou super moda hoje, esse sistema de festa para nós, foi o princípio de tudo. As XXXPERIENCEs começavam sempre com “house” depois ia caindo para o techno/trance até chegar no psy, e tinham festas que rolavam também drum’nbass, enfim começamos a fazer as XXXPERIENCEs divulgando a música eletrônica e suas vertentes, e não só a música psy, como muitos imaginam.
Rica: Não creio que seja um resgate às raízes, porque as raízes nunca foram perdidas, as raízes estão na dança, comunhão e entretenimento, o que impera até hoje, mas tivemos uma experiência muito interessante em Curitiba quando colocamos também alguns brinquedos grandes de parque de diversão.
09. Qual o Top 10 atual de vocês?
Rica: Essa eu pulo…
Feio: Tenho vários nomes de artistas que eu ando tocando muito como: GMS/ Growling Machines/ Wrecked Machines/ Alchemix/ Galactika/ Species/ Shanti/ Vibra/ Audio-X/ Life Style/ Cosmonet/ Mad Hatters/ 28/ Burn in Noise, a lista é bem grande, mas em geral os brasileiros estão dominando os sets de muitos DJs por esse mundo afora.
10. Qual a mensagem que desejam enviar ao público que estará na edição especial?
Feio: Que vocês venham mais uma vez se divertir com a gente, dessa vez literalmente, pois teremos um parque de diversão, além de excelentes artistas, decoração nova, enfim, tudo que vocês sempre esperam de uma edição especial da XXXPERIENCE para encerrar a turnê de 2008, e que Deus ajude a todos nos mandando uma noite estrelada e quente, para que possamos no final refletir mais uma vez com o nosso slogan “EXPERIMENTE A VIDA”.
Rica: Essa eu pulo também porque fica uma coisa muito de filósofo profeta, tipo delegado do Denarc na MTV, "Meninada, vá às festas curta sua música, mas não tomem drogas…" – Que tal? Beijos Rica.
Informações completas: www.xxxperience.com.br

